TÃO PERTO E TUDO FICOU LONGE.

 Por vezes estamos tão perto do objetivo, do objetivo de uma vida, de repente tudo muda e tudo ficou longe, muito longe, começa tudo de novo...

Nos últimos jogos paraolímpicos, na maratona, a Espanhola Elena Congost, invisual, concorria na maratona paraolímpica na categoria T12. Ela e o seu guia, Mia Carol ( os atletas invisuais são guiados por outro atleta ao longo de todo o percurso, ligados por uma pequena corda ), foram terceiros , medalha de bronze com o melhor tempo de sempre da atleta e a terceira melhor marca do ano, o que mostra o nível excecional da competição e de todo o trabalho dos atletas, trabalho de anos, sacrifícios, evolução e na meta a explosão de alegria, de cumprir de um sonho, não só da atleta, mas de toda a gente que a acompanha e sobretudo do guia. Uma história de vida e de superação!

As duas primeiras atletas chegaram a alguma distância, estando a quarta a mais de três minutos. Distâncias que permitiram Elena Congost chegar à vontade e sem a pressão da proximidade das adversárias. Mesmo as cãibras nos últimos metros do seu guia, não impediram atrasos em direção á meta.

A alegria e a descompressão de muitas emoções, afinal uma medalha nos paraolímpicos era a recompensa. Não contavam era para o que se passou a seguir.

Com a emoção da meta à vista, as dificuldades crescentes do seu guia, com cãibras, desequilíbrio, chegando mesmo a cair a 10 metros da meta, nesse momento Elena largou a corda que os uniu durante toda a maratona, com o único objetivo de ajudar a levantar o seu guia e ambos passarem a meta e finalmente explodirem de alegria. Momentos depois, o guia recomposto, ambos passaram a meta, felizes, acabavam de ganhar a medalha de bronze nos jogos paraolímpicos, objetivo para que tanto trabalharam. Tantas horas a correrem unidos por uma pequena corda que ambos seguravam pela mão. 

Segundos depois desta alegria, explosão, comemoração, fotos, felicitações entre eles e das pessoas mais próximas, veio a noticia que caiu como uma bomba. 

O arbitro comissario da zona de meta, indica que quando Elena foi ajudar o seu guia a 10 metros da meta, quando estava com cãibras, em desequilíbrio, chegando mesmo a por o joelho por terra, nesse momento, Elena gritando "estamos na meta, mais um pouco" puxa o seu guia Mia Carol e larga por segundos a corda que os unia, voltando depois a segurar e ambos completaram o que faltava da distancia de maratona, uns míseros 10 metros. A decisão viria depois a ser confirmada, foram desclassificados, tendo perdido a medalha de bronze, correspondente ao terceiro lugar.

Elena Congost e Mia Carol, foram desclassificados por durante 3 segundos terem largado a corda que os uniu durante toda a maratona. Que os uniu durante toda a preparação e tudo que isso implica. 

Bom agora segue uma batalha judiciaria no Tribunal Arbitral do Desporto e vamos perceber o que é considerado pela razão e limiar do esforço humano e o que é desprovido de espirito olímpico e o que equilibra no meio de tudo isto.

Curioso que a atleta invisual, repito, invisual, foi ela que guiou o seu guia no meio da confusão emocional e o ajudou a cruzar a linha de meta, partilhado a explosão de emoções e energia que realmente os ligava, minimizando a importância  da corda que os uniu. Nunca vamos perceber o valor do empenhamento do guia Mia Carol, ou se o seu nível de forma física acompanhava realmente o nível da atleta Elena Congost. Certo é que bateram o record pessoal e Espanhol de Elena e fixaram a terceira melhor marca de sempre, só para perceber o nível destes jogos paraolímpicos e dos atletas envolvidos.

Diz-se que "em terra de cegos, quem tem um olho é rei", ou, também se diz que " só é cego quem não quer ver". Pois eu também digo que por paixão, por objetivo, por amor, quer seja pelo próximo, por profissão, desporto, vida, religião ou simplesmente por querer muito, fica provado que ter alguma incapacidade, só por si não é uma deficiência. A atleta invisual pela sua vontade, emoção e por tudo que até ali tinha passado, passou ela a ver, a ver de verdade, enquanto que o seu guia a sofrer de cãibras foi incapaz de aguentar os restantes 10 metros, somente 10 metros, criando uma deficiência que causou mais problemas do que a própria invisualidade da atleta. Ver, de uma maneira ou de outra todos vemos, muitas vezes não queremos ver. 

Assim sonhos que estavam tão perto de concretizar ficaram longe. O caminho de preparação, já de si penoso e complicado para chegar ao nível das medalhas paraolímpicas, ficou longe, porque um juiz viu demais, não analisou todo o sofrimento da preparação dos atletas, que ele não viu, possivelmente nem imagina e porque um guia, possivelmente não preparou tão afincadamente a sua preparação como a atleta que ele guiava.

Geralmente temos problemas, ou os nossos maiores problemas são com coisas que não conseguimos controlar. A Elena Congost controlou todo o seu caminho, a sua evolução, mas não conseguiu controlar a preparação do Mia Carol, nem o olho de lince do juiz de meta, e vai ficar a 4 anos de uma possível "outra" medalha.

É claro que sendo ela invisual não vai poder praticar a modalidade sozinha, mas ficou provado que ela, pela sua fé, vê muito melhor que o seu guia e do que o juiz de meta. Infelizmente não o pode fazer sozinha. 

Enfim podemos controlar quase tudo, mas existem sempre pormenores que não conseguimos, nem podemos controlar. O medo controlamos com coragem! Acreditamos e trabalhamos para vencer, vencemos e provamos que ultrapassamos vários limites, os limites que os outros nos impõem e os que nós próprios impomos e damos tudo para ultrapassar!

Veni, vidi et Vinci!

Cesar o imperador Romano, fazia menção ao facto de uma vitoria rápida sobre os oponentes, mas sabemos que hoje na vida, nem tudo, ou quase nada é um processo rápido. Chegas, vês e vences, mas dá muito trabalho!

Diria mesmo dá um trabalho do ... outro mundo!

carlospires - O Diário Incontável 


    


   

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