E SE MORRESSE HOJE?

 Se morresse hoje?

Pelo que já vi da morte, e já senti de perto esse  último suspiro, a expressão facial de quem sabe que vai morrer, é uma expressão serena. Expressão de quem sabe que viveu e em alguns casos representa um abraço sentido a tudo que passou e a tudo que significou viver.

Alívio... Felicidade... 

Morrer na altura certa, a morte vem sempre na altura certa, com vida vivida, na velhice, na experiência... Dizem que depois incorporamos outras vidas, não sabemos, para já temos esta.

Se morresse hoje teria ainda muita coisa por fazer. Teria muita coisa inacabada, muita coisa que não resolvi, possivelmente nem vou resolver. 

Que significado teria hoje o meu desaparecimento?

Como todas as pessoas que desaparecem, teria uma fase que seria notado esse desaparecimento. Pensamentos, lembranças, hábitos, saudade...mas certamente já não seria imprescindível na vida de ninguém. Pensar isto pode até chocar ou parecer estranho, mas na verdade não é tão estranho assim.

Uns anos atrás não teria este pensamento, muita coisa importante estaria a acontecer e muita coisa prendia á importância de viver e estar cá. 

Hoje, julgo não ter essa preponderância na vida de ninguém. 

Respiro enquanto estou vivo, tenho total controle de todos os meus sentidos, se bem que a visão já esteja um pouco vetusta e cansada, mas porquê a morte tem tido repetição nos meus pensamentos?

Será que no meu íntimo penso que cheguei a uma fase que não tenho muito mais a fazer?

Será que tem importância o facto de estar perto do fim da minha carreira profissional?

Será que o apelo das minhas origens transmontanas tem uma força maior do que julgo?

É um facto que a minha vida pessoal atual, a carreira profissional estar a chegar ao fim, aguça o chamamento de estar perto dos que deram tudo por mim. Os meus pais estarem numa idade que cada vez mais carecem de companhia e reconhecimento, apela no meu subconsciente a estar próximo deles. 

Pode este desejo altruísta estar a interferir nos pensamentos e no caminho?

Será altruísta esse pensamento ou um desejo?

Fica muita dúvida, muito pensamento e uma pergunta que fica mais forte e perdura no tempo...e se morresse hoje?

Possivelmente não tinha tempo de sentir o alívio de quem vai em paz, pelo dever cumprido ... 

Certamente não ia em paz, nem sentir alivio, motivo mais que suficiente para não pensar em desaparecer, se bem que não depende de mim, ainda é cedo, sou ainda muito novo e tenho ainda muito para viver. Acima de tudo tenho muita divida com muita gente e as dividas são para se pagar! 

Conscientemente sei que algumas situações já não vão ter solução, embora se diga que tudo tem solução...curioso, diz-se que tudo tem solução menos a morte!

Tenho falado muito em morte, descansem que não tenho nenhuma ideia mais macabra em mente, falo em tudo sem nenhum tabu ou faço mistério sobre qualquer assunto.

Continuo em luta encantonado, na procura de uma brecha na muralha! É uma luta tóxica que um dia vai ter fim!

Por vezes é necessário descobrir uma brecha, porque todas as muralhas por mais duras que sejam tem sempre um ponto em comum. O caminho tende com desgaste a ser toxico e a deixar marcas, marcas como papeis amarrotados que nunca mais voltam à forma inicial...

Toda a evolução muda comportamentos, ideias, saber e sobretudo muda perspectivas. A lucidez é essencial para continuar. 

Hoje não vou morrer, sobretudo não vou morrer porque não me apetece! 

Vou continuar vivo, vou respirar, deixar respirar, deixar viver.

Deixar viver, em certas situações também é um ato de amor, sobretudo quando vemos alguém viver feliz na sua liberdade, nas suas vivências, nos seus amores! 

Tenho a certeza que muita gente, eu sei quem são, iam sentir muito a minha falta, eu também sinto e muito!  

carlospires - O Diário Incontável.


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