VAZIO
Muitos sabem que sou apaixonado por ciclismo, para além de ser treinador de ciclismo, sou assíduo praticante do " andar de bicicleta" , pelo desafio a mim mesmo e pelo que provoca no meu organismo o esforço de pedalar.
Uns dias atrás sofri uma queda num dos meus "passeios". Para além de chapa amolgada e ter batido com a cabeça ( ficou ainda pior do que antes ), ainda hoje tenho algumas dores na anca e problemas com a posição na bicicleta. Mas a minha experiência e pouco juízo, dizem que a recuperação está quase a terminar.
Ontem, decidi, desafiar me, porque precisava! Fui fazer a volta que vêm na imagem, onde estão contempladas algumas paredes algarvias.
Vento, subidas, pouca rodagem a seguir à queda e pouco tempo para concretizar o proposto, ia trabalhar na parte da tarde , sendo o tempo muito curto.
Estava proposto um contra relógio físico e mental.
Primeira parte do percurso, muito rolante e com vento forte de frente, os elementos estavam a aumentar o desafio.
A seguir a Silves as primeiras paredes, 16/17 %, percebi que a minha perda de peso ( de 82 para 72 kg) me retirou também muita massa magra, para além de retirar peso inerente. Logo percebi a falta de potência e eficiência na pedalada.
Desafio seria gerir o esforço, energia, tempo, eficiência de pedalada e não entrar em colapso mental.
Algumas descidas aliviavam, tentava entrar num ritmo de pedalada redonda e eficiente, para poupar e ganhar ritmo equilibrado entre gasto e eficiência.
Estrada de São Marcos da Serra para Monchique levou o meu corpo e mente ao limite. As duas primeiras subidas levaram-me ao limite das forças. As pernas ardiam, os músculos já não tinham nada, a pedalada parecia mais martelada na bicicleta, estava perto da quebra total, completamente vazio fisicamente.
Comer, beber, procurar no fundo, bem no fundo o pensamento que me ajudasse a recuperar e ultrapassar o momento. A cada subida, via o gráfico no GPS, muito sector laranja e vermelho, não aparecia nada de positivo no terreno e no que faltava percorrer. Na minha mente consegui renovar e trazer ao de cima força, para desde o vazio recuperar e a vencer o obstáculo.
Última subida antes de Monchique, olhei para o gráfico, 7,3 quilómetros de subida, início mais inclinado, mas depois, a subida continuava suave e progressiva.
O corpo começou a reagir e a pedalada a voltar a ter a amplitude mais eficiente, pedalada redonda e progressiva. A velocidade foi subindo e tudo foi ultrapassado.
Depois de Monchique até Portimão, foi desfrutar a descida e pensar que ainda és capaz deste desafio, de ultrapassar tudo, que podes ser outra vez tu.
Estive vazio, perto de parar e pôr o pé no chão. Do vazio, preenchi a mente e ultrapassei tudo que me puxava para baixo.
Esta é mesmo a minha terapia, o meu desafio, loucura e que me renova.
carlospires - O Diário Incontável

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