SOZINHO COMIGO
Desde sempre tenho este sentimento, estar sozinho comigo...
Já dei a ler várias vezes, o que escrevo é só o que quero que saibam, mesmo assim cada um pode ler, só ler, ler e interpretar, pode perceber o que quiser, não perceber nada, cagar na minha escrita, não achar graça nenhuma, acreditar ou literalmente não achar nada! Se soubessem o que realmente é... não tinha graça!
Todos, de certo modo estamos sozinhos, algum tempo, sempre ou quase sempre...
Eu, se não apreciasse a qualidade que é estar sozinho comigo mesmo, possivelmente não viveria, estaria morto para mim e para quem importa.
Decididamente tenho todas as minhas prioridades perfeitamente encaixadas fora do contexto geral. Compreendo que não sou como a maioria, sou livre de pensamento, livre de moléstias.
Hoje, amanhã, de tudo o que o passado originou, posso afirmar que finalmente estou completamente sozinho comigo mesmo. Não falo de datas, porque as datas tem o rigor de uma assinatura. Assinatura fria, sem significado, desprovida de qualquer sentimento ou vida.
O que fica faz parte do caminho, caminho seguro, rico, cheio de memórias, momentos de vida, amor, ternura, evolução, mudança, ingenuidade, coragem, perseverança... passado, brilho e crescimento...
Nunca consegui lidar com o que não controlo, neste momento controlo a minha vida, controlo o meu futuro, controlo a minha coragem, não controlo o pensamento nem a corrente de pensamento alheia. Mas tenho a solução comigo e isso consigo controlar.
Numa das minhas recentes viagens ao sul, encontrei a minha linha de renascimento, onde posso cortar com tudo o que me impede, ainda, de estar sozinho comigo, tomar conta da minha paz, de ser totalmente eu!
Na zona onde nasci, no coração da Ocitania, de pedras brancas ocres, lavanda, história, vales e montanhas como o Mont Ventoux...
Bem no sul da península, encontrei essa pedra, encontrei os vales e as montanhas, não encontrei a lavanda, mas também não vi o Mont Ventoux, vi história, vi dom Sancho, vi o mar...
Vi que podia renascer ali!
Ali vou ter coragem de estar sozinho comigo!
Sempre que na minha plenitude atinjo o máximo dos meus sentidos, e ultimamente tem acontecido constantemente, percebo que a relação comigo não pode estar melhor. Estou no meu ponto de partida, tenho coragem, tenho caminho, tenho-me a mim...
Olho em frente. Apaixonado pela minha cebola, que me ajudou a renascer, ter coragem e dar passos seguros no meu caminho.
Da minha cebola tirei várias camadas. Vi sair a camada da primeira palavra, camada do conhecimento, camada dos sentidos...
Na camada dos sentidos, foi bom olhar, tocar e ouvir. Mais complicado foi falar aos sentidos e saborear o momento. Difícil foi resistir, difícil foi lutar para não desistir, desistir nas primeiras camadas.
Depois veio a camada da aceitação, aceitar todos os sentidos por igual. Depois outras camadas da cebola desapareceram...nesse processo a cebola continuou viva, chorou, fez chorar, duvidou, ainda duvida, duvida sempre...
Vivo num desafio permanente.
Podia ficar estável, parado, mas não é isso que se pretende, até porque o caminho só se faz em movimento.
Olho para a cebola, está mais linda, com formato novo, é uma cebola orgulhosa das suas camadas. A cebola pode ser melhorada, certamente todas as camadas da cebola podem melhorar o meu caminho.
Uma cebola...à primeira vista dá uma ideia de rusticidade, mas olhando melhor podes descobrir uma infinidade de conceitos.
A primeira camada da cebola, fina, acastanhada, fácil de retirar. À medida que retiras as camadas, vai aparecendo dificuldade crescente, a cor vai ficando esbranquiçada, podes chorar, pode ser levemente picante. Fica cada vez mais pequena, mais suave, mas na zona da raiz fica sempre o testemunho das camadas que já retiraste com sucesso, como a lembrar-te que já passaste por aquelas camadas, relembrar a importância de onde já estás, lembrar que ainda não chegaste à ultima camada, que não sabes quando lá chegas, lembrar que não vais ter a certeza de nada, mas que mesmo assim vais avançar, com coragem, amor, dedicação, desafio, presença...sempre a lembrar que estás no caminho!
O caminho agora não pode parar!
Não esqueço nada, tudo é a minha vida, tudo é valor...participei na vida de muitas pessoas, todas me emprestaram vida, todas me deram caminho para andar, todas me deram amor. Ao renascer vejo que nada posso dar a essas pessoas, porque por mais que queira dar, hoje, não me é permitido, é como se tivesse secado a fonte e a água já não brotasse, a fonte agora árida de laços, sem fruto novo, terá que renascer, renascer na força de cada um, na fé de acreditar e nada tem mais força do que acreditar em nós próprios.
No vazio compreendes o teu ponto de partida, o renascer implica estares vazio, deixares viver, não criares um desapego total em relação aos outros, mas sim esvaziares tudo que era teu e partires do nada. Não é um exercício fácil, mas nunca ninguém garantiu qualidade com caminhos fáceis de transpor.
Renascer implica fazer novo, não fazer de novo, sim fazer como és, retirar todas as camadas possíveis, amar a cebola, caminhar com a cebola na mão, despertar todos os sentidos, dar tudo à cebola, chegar ao centro, ao coração da cebola. Em equilíbrio, seguir, seguir o teu equilíbrio. Dar sem esperar, sentir sem tirar, ver de olhos fechados, falar em silêncio, ouvir.
A cebola fez-me chorar, chorou comigo, renasci com a cebola, espero que a cebola renasça comigo.
carlospires - Beijo, olá sou eu!
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