MANUEL ORELHA

 Não fiquei com nada dele, gostava de ter ficado com alguma coisa dele...

Cabelo encaracolado, sardas, olhos vincados, inchados, estatura média, caçador com estilo e método, gostava da caça à perdiz. 

Irreverente, educação rigorosa, um bom rebelde. Era o meu ídolo.

Manuel Joaquim Gonçalves, mais conhecido por Manuel Orelha. Faleceu, eu tinha 17, ele 28, puta que pariu! Ninguém nos deixa com essa idade. Especialmente porque ficou muita coisa por fazer e dizer, a nossa relação ficou inacabada...

Não me ensinou a nadar, não me ensinou a caçar perdiz, não me ensinou a andar de mota nem como se consegue ter amigos para sempre!

Ensinou me a andar de bicicleta, a ter paixão por tudo, a ser positivo, rebelde, a lidar com situações mais negativas na vida e a dar a volta por cima.

Era apaixonante lidar com ele, falar com ele, ouvir as suas histórias. Trabalhou em Interlaken na Suíça, de lá, ao contrário de outros trazia liberdade, independência. As primeiras férias dele vindo da Suíça foi um acontecimento, vários amigos e conhecidos sempre à volta dele. Muitos pelos francos que ele trazia, pelo que podia comprar e oferecer...na altura não percebi, para mim todo aquele reboliço à volta dele ainda fazia com que eu o admirasse mais, o meu ídolo! 

Ainda hoje admiro, continua a ser o meu ídolo, muito à frente na época.

Aventuras de caça aos "pássaros do rio" à noite com caniço e iluminação de gasómetro.

Caça à perdiz, com a "laica" "pardal" e "tiro liro" alguns nomes de cães que me lembro. Fazíamos quilómetros a bater monte, sempre no encalço das pobres aves. 

Treino dos cães para a caça, que hoje não se pode contar pormenores.

Recuperação e carregamento de cartuchos feito de maneira artesanal.

Rebeldia desafiadora da educação rigorosa , não era fácil ser filho do meu avó Viriato.

Eu imitava tudo que ele fazia.

 Por uma só vez me puxou as orelhas, ainda não sei se foi por lhe roubar um maço de tabaco , se foi por ter fumado, mas serviu de lição, nunca mais toquei num cigarro.

Conversar com ele era quase como ouvir poesia, para ele tudo era paixão, tudo era intenso, verdadeiro, inocente, mesmo traído, nunca sentiu que devia replicar esse sentimento. 

Muito recentemente voltei a sentir falta dele, nesta fase da minha vida ia ser confidente e companheiro. Hoje tenho muito dele, senti mais que nunca a falta dele, das palavras dele. Em frente á sua lápide chorei, falei com ele, senti-me mais vulnerável que nunca. 

Foi muito importante na minha educação, foi marcante. Que saudades.

Sempre tentou fugir do trabalho na empresa de construção civil do meu avó, ainda lá trabalhou algum tempo, todos na família trabalhamos, mas era a restauração que o cativava. Trabalhou no Avenida, na marisqueira da Sé em Bragança, na discoteca Dona Chama e na Suíça, sempre na restauração. Ainda esteve na França onde trabalhou na transformação e conserva de tomate, a famosa , na zona "Conserveries du Midi".

Todos os ídolos, todos os génios tem fragilidades e são humanos, sobretudo são humanos, não são deuses. Os vícios e  a doença conseguiram vence-lo. 

Certamente alguns "amigos" não o recordam como eu e especialmente o seu grande amigo José Carlos que ainda hoje o recorda com saudade!

Todos nós temos pessoas e momentos que nos marcam e dão rumo à nossa vida, nos guiam no caminho. Todos nós temos ídolos, todos temos coisas simples no dia, que fazem diferença toda a vida. 

O "orelha" ensinou-me a ser positivo, calmo, a ter paixão e simplicidade a viver a vida. Hoje gosto de viver com paixão, intensidade e dar importância ao que é meu, graças a ele. 

Como alguém hoje me diz, sou um rural!   

É verdade sou um rural, tal como ele, apaixonado, intenso. Sinto que deslocado, fora de tempo, ainda com muito para dar e receber.

Obrigado Manuel "Orelha" existem momentos na vida que acontecem, tu foste a vida acontecer!


carlospires - O Diário incontável 








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