A BICICLETA
Alguém sabe qual é a verdadeira sensação de andar de bicicleta?
Muitos vão dizer que é um meio de locomoção que destrói as pernas, costas, braços e sobretudo dá cabo do cagueiro. Muitos desistem antes de tentar verdadeiramente, outros no primeiro "empeno" encostam a viatura sem motor, porque é muito esforço!
A verdadeira estirpe de quem anda de bicicleta, é enquanto desportista estar qualificado para ser um humano acima de muitos outros. Quem anda de bicicleta é um desportista acima de prognósticos, é alguém que consegue pelo trabalho, pela consistência ir para lá dos limites comuns. Hoje parece nada estar ao alcance, mas amanhã já ultrapassas o teu anterior limite e todos os dias inventas novos desafios e vais mais além, fazes, primeiro o que é possível, depois com evolução normal começas a sentir que consegues tudo, até o que é impossível para muitos.
O que eu sinto?
Andar numa bicicleta é, primeiro, um momento quase celestial, de transe e que ultrapassa todos os limites , físicos e mentais.
Andas de bicicleta e não tocas o chão, o pedalar que te dá equilíbrio, quase por magia te faz avançar, te dá movimento, liberdade.
O exercício é intenso, vigoroso, para mim, quando saio sozinho é extenuante fisicamente, no limite do meu corpo, da minha resistência, no limite da dor, numa gestão muitas vezes doentia dos teus limites físicos e intelectuais.
Hoje é assim, depois, amanhã consegues ultrapassar o teu limite de ontem, puxas mais um pouco acima da linha vermelha.
Andar de bicicleta com frio, gelo transmontano, passar trilhos vertiginosos, subidas que desafiam qualquer equilíbrio, lama, cursos de água, não sentir os pés nem as mãos com o frio extremo. Depois vem o calor, temperaturas que até à sombra derrete, os pés queimam, o bronzeado muda, a sede, o corpo mais uma vez levado ao limite, pelo frio, pelo calor.
Mas é divertido, desafiador, um ato de coragem, um estado de quase loucura.
Uma terapia.
A mente e o corpo ficam vazios, num estado que é fácil preencher. Preencher de novos pensamentos, novas atitudes, regeneram as células, ficas mais jovem, resistente e consegues depois de tudo caminhar no limite e ultrapassar.
Isto quando vou sozinho.
Quando vou com alguém é diferente. Aí é sobretudo pela companhia, pelo convívio, partilha. O ritmo é sempre diferente, nivelado pelo mais lento, por vezes sou eu, mas pelo menos a gestão do ritmo é feito por mim.
Pedalar, compreender que é um exercício limite, anti gravidade, em equilíbrio constante, movimento, sensação de liberdade inigualável, desafiante, muitas vezes um ato de coragem que não está ao alcance de qualquer um!
Fazer a Estrada Nacional 2 sozinho!
A primeira reação de quem ouve é...silêncio...depois dizem que és maluco!
Pois, se andas verdadeiramente de bicicleta a primeira reação é...quando vais, desafio fantástico!
O primeiro certamente não anda de bicicleta e não sabe merda nenhuma de desporto.
O segundo percebe o que significa, fazer a Nacional 2, ou subir o Mont Ventoux, fazer uma etapa da volta a França ou levar o corpo ao limite físico e mental, marcar um objetivo e ultrapassar esse objetivo. Sonhar, acordar e viver!
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